Onde se manifesta a razão?

 

interrogação

Amig@s blogueir@s!

O que é a razão? O que é a inteligência?

Fui procurar respostas e, inicialmente recorri ao dicionário. Segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, um dos significados para o termo é: faculdade de raciocinar, de apreender, de compreender, de ponderar, de julgar; a inteligência”. Ainda, de acordo com o referido Dicionário, a origem da palavra inteligência vem do latim, e quer dizer:  entendimento, conhecimento.

Vocês devem estar se questionando sobre o motivo de eu ter começado esta postagem  fazendo questionamentos.

Amig@s blogueir@s, todos buscamos  a felicidade, buscamos ser e ver os que amamos também felizes. Buscamos o bem-estar conosco e com as pessoas a nossa volta. Cada um de nós faz isso à sua maneira, de acordo com as possibilidades materiais e intelectuais e espirituais de que dispõe e acredita. Penso que toda busca, todo trajeto é válido e necessário, de acordo com o que cada indivíduo almeja, desde que, não interfira ou impeça o outro também de se realizar ou de pensar.

Ontem (dia 08/10), li um artigo no jornal Folha de São Paulo, do psicanalista Contardo Calligaris, que muito me chamou a atenção e cujo título é: Razão, crença e dúvida.  È um artigo muito interessante e nos desafia a refletir sobre os extremismos.

Transcrevo aqui, na íntegra, o artigo e convido aos que já leram a deixarem seus comentários. Convido também aos que não leram para que o façam, e também deixem seus comentários, pois o diálogo (virtual ou não) é o que permite pensar e repensar nossas idéias e reformular nossas atitudes. Vocês não acham?

Segue a transcrição do artigo. Boa leitura para tod@s!

CONTARDO CALLIGARIS

Razão, crença e dúvida

Onde se manifesta a razão? Na arrogância de certezas absolutas ou na capacidade de duvidar?



MEU PRIMEIRO contato com a história que segue foi em junho passado, no blog de Richard Dawkins (www.richarddawkins.net, site que se autodenomina “um oásis de pensamento claro”). Dawkins é o evolucionista britânico que se tornou apóstolo do racionalismo ateu e cético, escrevendo, entre outros livros, o best-seller mundial “Deus – Um Delírio” (Companhia das Letras, 2007).
Mas eis a história. Em 2002, na Austrália, o casal Sam, de origem indiana, perdeu a filha, Gloria, de nove meses.
A menina, a partir do quarto mês, apresentou sintomas de eczema infantil, que é uma condição alérgica que afeta mais de 10% dos bebês e, geralmente, acalma-se ou some aos seis anos ou na adolescência. As causas do eczema infantil não são bem conhecidas; a medicina administra a condição da melhor maneira possível, esperando que passe. O problema é que o eczema (pele seca com prurido) dá uma vontade de se coçar à qual as crianças não resistem, e a pele, ferida, abre-se para qualquer infecção. Foi o que aconteceu com Gloria, que morreu de septicemia.
Não foi falta de sorte: o pai de Gloria é homeopata e, em total acordo com a mulher, medicou a menina só com remédios homeopáticos (insuficientes na condição da menina). Isso até o fim, quando ela definhava pelas infecções internas e externas. Gloria foi levada a um hospital três dias antes de morrer: as bactérias já estavam destruindo suas córneas, e os médicos só puderam lhe administrar morfina para aliviar seu sofrimento.
Os pais de Gloria foram presos, acusados de homicídio por negligência e, no fim de setembro, condenados pela Justiça australiana: o pai, a oito anos de prisão, a mãe, a cinco anos e quatro meses. Segundo o juiz, Peter Johnson, ambos os pais “faltaram gravemente com suas obrigações diante da filha”: o marido pela “arrogância” de sua preferência pela homeopatia e a mulher pela excessiva “deferência” às decisões do marido.
Os termos da decisão de Johnson são admiráveis. A obediência -ao marido, no caso-, seja qual for seu fundamento cultural, nunca é desculpa; ela pode ser, ao contrário, o próprio crime. E, sobretudo, o marido é condenado não por recorrer à homeopatia, mas pela “arrogância” que lhe permitiu perseverar em sua crença e em sua decisão diante do calvário pelo qual passava a menina.
A sentença de Peter Johnson é, para mim, um modelo de racionalidade, porque estigmatiza a certeza independentemente do objeto de crença. Ou seja, o juiz não discute o bem fundado da autoridade do marido e, ainda menos, os méritos respectivos da homeopatia e da medicina alopática. Tampouco ele quer limitar a liberdade de opinião, garantida pela Constituição; a sentença penaliza apenas, por assim dizer, a rigidez.
Se me coloco no lugar dos pais de Gloria, não consigo imaginar uma crença, por mais que ela possa ser crucial para mim, que resista à visão do corpinho de minha filha transformado numa ferida aberta e purulenta.
Antes disso, eu (embora confiando, a princípio, na medicina alopática) já teria convocado não só os homeopatas (o que, aliás, seria uma banalidade, visto que a homeopatia é uma especialidade médica reconhecida) mas também todos os xamãs, feiticeiros e curandeiros que me parecessem minimamente confiáveis. E, é claro, embora agnóstico, eu rezaria, sem nenhuma vergonha e sem o sentimento de trair minhas “convicções”, pois a primeira delas, a que resume minha racionalidade, diz, humildemente, que há muito no mundo que minha razão não alcança.
Se fosse testemunha de Jeová, e minha filha precisasse de uma transfusão (que a religião proíbe), abriria imediatamente uma exceção. Mesma coisa se fosse cientologista, e minha filha precisasse de ajuda psiquiátrica. Sou volúvel e irracional? O fato é que tenho poucas crenças (provavelmente, nenhuma absoluta), e acontece que, para mim, a razão é uma prática concreta, específica: um jeito de pesar e decidir em cada momento da vida.
O surpreendente é que, ao ler os comentários dos leitores no blog de Dawkins, os “racionalistas” parecem tão “rígidos” quanto o pai de Gloria. “A razão” (que eles confundem com uma visão aproximativa do estado atual da arte médica) é, para eles, um objeto de fé, uma crença pela qual facilmente condenariam os “infiéis” à fogueira.
Com o juiz Johnson, pergunto: onde se manifesta a razão? Na arrogância das certezas ou na capacidade de duvidar?


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